Apresentação - E.A Carlini


Apresentação
E.A. Carlini*

É, para mim, uma imensa satisfação fazer a apresentação deste livro e de seu autor. Primeiramente um pouco sobre ele. Conheci Marcelo Sodelli quando ambos fazíamos parte do Comitê Científico que organizou o I Congresso da ABRAMD (Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas). Foi fácil perceber: idealista, batalhador, perseverante, defendendo seus princípios sem tentar massacrar a opinião alheia; daí o surgimento de uma amizade baseada em respeito mútuo.
O assunto abordado pelo livro não é passível de unanimidade. Sempre haverá opiniões discordantes e mesmo até apostas em relação a qualquer modelo sobre prevenção relativa ao problema que se convencionou chamar de uso de risco e/ou dependência de drogas. Mas, o importante é que estas opiniões (teorias) devem ser expostas publicamente, objeto de discussões, pois, só assim, um dia poder-se a chegar à realidade (ou próximo dela) sobre o tema. E então perceberemos que na verdade existem várias realidades dado à diversidade na cultura das sociedades onde drogas são utilizadas. Como dizia o Prof. José Ribeiro do Valle, talvez o primeiro no Brasil a encarar a maconha sob um foco eminentemente científico: “Estudamos a maconha que o homem usa. Isto é errado! Deveríamos estudar o homem que usa a maconha”.
E o livro de Sodelli neste aspecto, não deixa dúvida: investe pesadamente contra o modelo proibicionista (eu diria a pedagogia do terror) que atualmente esta vestindo uma nova roupagem: “prevenção que convive com as diferenças”, mas que na realidade aponta para um nunca usar drogas. E, ao mesmo tempo, que desconstrói o modelo proibicionista elabora em profundidade sobre um modelo de prevenção, chamando-o de “Ações Redutoras de Vulnerabilidade”, utilizando para isto dos conceitos e ideias do modelo de redução de danos e da noção de vulnerabilidade.
Este livro certamente está fadado a gerar polêmica o que será extremamente salutar para o assunto; alias o próprio autor reconhece que o tema está eivado de preconceitos ideológicos e políticos.
E para mostrar como estes preconceitos podem obnubilar visões mais claras, basta verificar no 2ª Capítulo do Livro que Sodelli cita a opinião de autores que consideram o INCB (International Narcotics Control Board), organismo ligado à ONU, como tendo sido “criado por pressão da política externa norte-americana, com à finalidade de exercer funções “que lembram os tempos da inquisição”. Entretanto, eu tive a honra de ter sido eleito pela comunidade científica mundial para membro titular do INCB, tendo cumprido meu mandato por cinco anos seguidos. E posso afirmar que o INCB não é o que foi afirmado pelos autores citados por Sodelli. Mas por outro lado, mesmo com a emocionalidade ideológica do que foi dito, ainda assim é vantajoso trazer à baila a Convenção Única de Narcóticos de 1961 da ONU, e INCB para uma re-análise. Afinal estes documentos  já têm meio século de existência e o mundo mudou muito de lá para cá.
E assim, devemos bater palmas a este livro. Afinal, todos sabemos que é somente através de discussões abertas, vigorosas e respeitosas que a humanidade progride.
Por esta razão, confesso para terminar, que o livro de Sodelli me fez lembrar Castro Alves.
           
                                   Oh! Bendito o que semeia
                                   Livros... livros à mão cheia...
                                   E manda o povo pensar!
                                   O livro caindo n’alma
                                   É germe – que faz a palma,
                                   É chuva – que faz o mar.     

E.A. Carlini
UNIFESP
Janeiro, 2010